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4.7.10

Konishiwa

Monte Fuji - Japão - Fotografia aerea

O caminho. Todo o bonsaísta passa por essa questão. Qual o caminho?
São muitas visões, são muitas opções. Muita coisa para aprender, muita coisa para construir.
Por isso é que é um caminho, sem fim à vista. Percorre-se e pronto. Cada qual como sente que tira mais prazer, alegria e paz. Mas uma coisa é certa, a parte boa é que não tem fim. Será sempre um caminho. Na verdade, não é mais do que um espelho das nossas árvores. Tesoura daqui, goiva dali... Nunca estão prontas, nunca acabam. Provavelmente, se forem bem trabalhadas, vão superar-nos e viver por mais anos que nós.
Para mim, no meu caminho, passaram dois anos. Cheios!
Foi o princípio na Escola do Centro de Bonsai de Sintra, foram os amigos que partilharam o conhecimento comigo, foi o segundo ano a evoluir na Escola do Jardim de Bonsai, em Tavira, com o Rui Ferreira, foi o Novo Talento no Congresso da Federação Portuguesa de Bonsai, Foi a participação no Congresso da EBA, foi o primeiro workshop e demonstração na 5ª Exposição do Clube Bonsai de Sintra... enfim, como começo de caminho não me posso queixar!
Mas, terminado este período, terminada esta etapa, eis que chegamos a uma encruzilhada. "E agora?"... "E a seguir?". As opções são, como sempre, mais que muitas. Ferramentas novas (já bem preciso...lol), vasos, material para trabalhar...?
Árvores de qualidade?... Ou continuar a aprender?
Árvores novas?... Aprender?
Árvores?... Japão?
Japão!!!!!
Depois logo virão as árvores!
Decisão tomada e num piscar de olhos tudo aconteceu. Por isso, a partir do início de Agosto até ao início de Setembro o meu caminho passa por Shizuoka, mais propriamente por Taisho-en. Onde vou começar a estudar com o Mestre Nobuichi Urushibata.

Sayonara.

P.S. - Um Obrigado do tamanho da distância que vai de Portugal ao Japão, à minha família! À Luisa e aos meus filhos, João e Teresa que apesar de ficarem umas férias sem o pai, são o meu apoio incondicional neste meu caminho.

P.S.1 - Um Obrigado também ao Pedro G.C. Almeida que me ajudou desde a primeira hora com toda a informação, acrescida de um grande entusiasmo.

P.S.2 - Um Obrigado também, aos amigos que me "empurram" para a frente. Que me questionam. Mesmo quando dizem: "Então desiste". ;)

21.6.10

Exposição anual - Clube Bonsai Sintra II - Demonstração

Do outro lado da bancada. Pela primeira vez. Completamente diferente!
Quando pensei nesta demonstração, lembrei-me das vezes que me sentei no público e ficava aquela sensação de que não havia dialogo. Passavam-se muitas coisas interessantes, mas as conversas, os porquês, as respostas, quase nunca aconteciam. Pensei que desta vez, podia ser diferente. Por isso, decidi levar o material quase em bruto (só com a limpeza da casca e nada mais) e explicar, conforme ia trabalhando, o que é que estava a acontecer. Responder às perguntas, "abrir" a conversa. E, foi isso mesmo que aconteceu. Por um lado, foi excelente. Conversa aberta. Participação. Tudo aquilo que sempre senti falta nas demonstrações que vi. Por outro, o tempo ia passando... agora consigo perceber as "explicações curtas", o silêncio.
A árvore que tinha para trabalhar, era material para demorar um dia inteiro. Felizmente, durante as quatro horas, os amigos foram participando, quer na limpeza da massa verde, quer na aramação. Por vezes, éramos 3 pessoas de volta da árvore. Também já consigo perceber a importância dos "assistentes" que tantas vezes vemos nas demos profissionais. Sem a sua preciosa ajuda seria impossível acabar a tempo. Neste caso, foram os amigos (que é bem melhor!). Gustavo, Luis, Luiz e Ricardo, obrigado! O tempo foi passando a grande velocidade. Já quase sem luz, deu para colocar a massa verde mais ou menos como tinha planeado. De forma espontânea sem tempo para olhar duas vezes (nota mental importante: da próxima, se houver próxima, parar 5 ou 10 minutos para "limpar" a imagem que estou a construir e voltar a olhar de novo com a cabeça limpa. Na EBA, vi os profissionais a fazer isso várias vezes e ficava o pessoal todo "Olha... então agora o "gajo" vai-se embora?... então não termina?... e isto fica assim?...". Hoje consigo perceber o porquê). Mas também deu tempo para discutir com os amigos o resultado. Aqui, como quase sempre, a opinião objectiva do Gustavo foi importante.
Hoje de manhã, já com a cabeça limpa, voltei a olhar para a árvore e. sem alteram a estrutura, reconstruí alguns dos pormenores da massa verde que não estavam, de facto, da melhor forma.
Concluindo: foi mais uma experiência espectacular. Deu para aprender muito. Ainda por cima, com a sorte de estar rodeado de amigos.

Sobre a árvore.
Tratava-se de um Juniperus de viveiro, de tronco recto e sem grandes pormenores a destacar. Uma árvore banal (já se vai tornando hábito..lol). Tinha sido trabalhada há alguns anos de forma muito básica (inclina para a esquerda, ramo para um lado, ramo para o o outro, para traz...) e ficou assim a crescer, sem voltar a ser tocado. Tratava-se de uma variedade que já tinha trabalhado e por isso sabia que a ramificação era pouco compacta, fazendo com que algum "Spaguetti" fosse inevitável. Ao imaginar o design final, a opção foi manter o estilo inclinado, rodando a frente e levantando mais o conjunto para lhe dar mais altura. O ponto focal (ou o factor de diferença, ou como eu gosto de lhe chamar, a Alma da árvore) é o ângulo extremamente agudo entre o tronco e o primeiro ramo. Os nossos olhos, saindo da base, sobem o tronco quase recto e ligeiramente inclinado, embora com algum movimento de veias e pormenores de jin's e caiem, quase abruptamente, descendo pelo sashieda.
Aqui fica o antes e o depois:

Juniperus de viveiro. Estilo: Shakan. Altura (sem o vaso) 70 cm.


17.6.10

Fecha-se uma porta, abre-se uma janela


Nota importante: Tinha aqui escrito anteriormente que a árvore portuguesa estava classificada no grupo da frente. Foi uma informação que me chegou, supostamente, vinda de uma pessoa da organização. Isto aconteceu durante a tarde de Sábado. Várias pessoas vieram-me dar os parabéns, entre elas um dos concorrentes que também tinha essa informação. Também tinha a informação que a Espanha era o terceiro lugar (para mim mais do que merecido) mas afinal foi o país organizador: A Suiça. Entretanto, apareceu num forum uma foto de uma folha de classificação afixada no Domingo que contradiz a informação que me tinha chegado. Francamente, não consigo explicar o porquê desta informação e quero acreditar que só pode ter sido um mal entendido. Para evitar confusões, decidi alterar este texto. Peço desculpa aos leitores deste espaço pelo ocorrido.

Fim de capitulo.
Faz agora 2 anos estava eu em Sintra a comprar um pequeno ulmeiro e a começar uma nova aventura que me levou, a uma velocidade estonteante, até ao palco europeu do Bonsai: a Convenção da EBA em Zurique. Daqui para a frente, apesar de ter o título até ao próximo congresso da FPB, o novo talento acabou. Não existem mais provas, não vou concorrer a mais nada.

Sobre a prova.
A tensão era alta. Muito alta. Por mais que que se tenha capacidade de abstracção era incontornavel. Lembro-me do meu colega do lado, ainda antes de começar, perguntar: "Estás nervoso?". Mestres a dar os últimos conselhos aos alunos, presidentes das federações a desejar boa sorte, máquinas fotográficas a disparar... enfim, a coisa era mesmo séria.
O nível era altíssimo. Para se ter uma ideia, o concorrente que ficou em terceiro lugar tinha árvores na exposição principal.
O material era de primeira. Juniperus Itoigawa de viveiro importados do Japão, todos muito idênticos. Não havia espaço para grandes "truques". Quase todos os concorrentes mostraram que conheciam bem as regras: descobrir o nebari, limpar a casca, não deixar jin´s mal acabados, marcar os shari's a fazer no futuro... a coisa passava por, primeiro tomar decisões, depois pelos pequenos pormenores. O relógio corria. De um lado ouvia "Corto ou não? não sei se é a decisão certa..." do outro, o concorrente tentava descomprimir entoando uns "Yop! Yop! Yop!". Mais fotos, mais gente... a certa altura, as decisões estavam tomadas e já não havia nada a fazer. Era tempo para os pormenores. De um lado ouvia "Já não consigo fazer nada de jeito com isto... só espero que acabe rápido..." e alguém que responde "Estás aqui... aproveita!".
Quanto a mim, senti que a coisa até estava a correr bem. Consegui manter a calma e concentrei-me para tomar as decisões. Foi nos pequenos pormenores que senti que podia ter feito melhor. Cobre... arame de cobre. Já tinha trabalhado algumas variedades de juniperus, mas nunca o Itoigawa. Por um lado é muito flexível, por outro é muito resistente. Na aramação média, tive que cortar e voltar a aramar mais grosso pelo menos 2 vezes. Na aramação fina, o arame de alumínio de 1mm não chegava e o tamanho a cima já era impraticável. De facto, o cobre permitia a firmeza na colocação dos leques de massa verde e a este nível a apresentação final fazia toda a diferença. Não serve de desculpa, mas serve de lição.

Sobre o evento.
Sendo a primeira experiência internacional foi, como é fácil de adivinhar, fantástico! Apesar de algumas criticas menos positivas que têm aparecido na net, a exposição estava de facto muito bem montada. Os exemplares, na grande maioria coníferas, eram excelentes e o formato absolutamente inovador. Mas, para mim, o mais marcante foi poder partilhar esses dias com figuras que só conhecia das revistas. A energia da "Scudra Azurra"... Enrrico Savini, Ivo Saporiti e seus pares, partilhar o banco do autocarro com o Thierry Font ou com o John Armitage, "Bom dia Sr. Walter Pall!"... Foi uma sensação única. Sentir-me parte, mesmo que por uns dias, da família do bonsai europeu. Fica o desejo e a intenção de repetir.

De volta a Lisboa e ao meu jardim, olhei para as minhas árvores e, ao contrário do famoso "vou pegar fogo a estes pauzinhos todos", disse: "Rapaziada, toca a crescer! Temos muito trabalho pela frente!"

Principio de capitulo.

P.S. - Um forte abraço para todos os amigos que mandaram mensagens, mails, sms's... Obrigado! Foi bom ler as vossas palavras. Um forte abraço também para os amigos portugueses que estiveram em Zurique. Foram bons momentos! Mandem-me lá as fotos da prova (jpires007@gmail.com) ;)

P.S.1 - Um "Parabéns!!!" reforçado (já que tive oportunidade de dar pessoalmente na gala) ao José Machado e ao pequeno Henrique Machado (que é o dono da árvore) pelo "Merit Award" atribuído pela EBA ao seu Zambujeiro.

22.1.10

Nostalgia



" (...) in Greek nostalgia
literally means ‘the pain from an old wound.’
It’s a twinge in your heart,
far more powerful than memory alone.
This isn’t a space ship. It’s a time machine.
It goes backwards, forwards.
Takes us to a place where we ache to go again.
It lets us travel the way a child travels.
Around and around and back home again
to a place where we know we are loved."

from "Mad Men - The Carousel"


É tarde. Muito tarde. Termina uma semana intensa de trabalho. Daqui a umas horas parto, mais uma vez, para o Algarve com a alegria de rever os amigos da Escola do Jardim de Bonsai. Bem sei que está prometido um post sobre o Thumbergii aqui de baixo. Enquanto o continuo a escreve-lo, enquanto arrumo as ideias, deixo este pensamento. Sempre que um bonsai me fizer sentir assim, valeu a pena.
(para ver o excerto original é só clicar no link. Mas, atenção, não é nada sobre bonsai. A cena passa-se numa agência de publicidade nos anos 60. Trata-se da apresentação de uma ideia para a campanha de um producto da Kodak. Sugestão para os curiosos que decidirem espreitar: Imaginem que o personagem, está a falar não de uma máquina mas de um bonsai. Enjoy!)

14.9.09

First thought

A semana começa com uma bela surpresa.
Aqui há uns tempos, descobri que tinham lançado um concurso de desenho sobre bonsai no blog Bonsaibark, órgão oficial da bem conhecida loja online Stone Lantern.
O meu primeiro pensamento foi "Olha... podia ser engraçado concorrer...". E ao pensar fiz. Peguei num virtual de um pinheiro que tinha desenhado para o Márcio Meruje, juntei-lhe a inspiração das "Montanhas Amarelas" na China e o estilo da caligrafia Japonesa. O resultado, foi este:
Quando acabei o desenho, fiquei a pensar "Será que está bem? Será que cumpre as regras? E as proporções? Será que devia pôr num vaso? Qual?"... Depois, olhei duas vezes e gostei do que tinha desenhado. E mandei.
Qual foi a minha surpresa quando soube que este desenho tinha ganho. Bem sei que não eram muitos concorrente, mas não deixa de saber bem.
Talvez o primeiro pensamento, o mais instintivo, o mais pessoal, seja mesmo o melhor. Ou pelo menos, possa ocupar um bom espaço nas nossas decisões.

11.8.09

E o primeiro ano chega ao fim

Hoje, dei por mim a reparar que este blog completa agora o seu primeiro aniversário. Como não podia deixar de ser, fica uma breve reflexão.
Para trás, fica um ano em cheio. As visitas, os workshops, as lições. Mas, principalmente, o forte sentimento de respirar esta arte cada vez mais. Começou por ser aos Sábados de manhã e, hoje em dia, é diário... várias vezes por dias. Estive a reler a primeira mensagem que escrevi aqui. Mal podia imaginar que a viagem seria, ao fim de um ano, tão vertiginosa.
Por vezes, dou por mim a pensar se não será "depressa demais". Por outro lado, o "comboio" tem seguido à velocidade que quis seguir. Questiono-me se o bonsai não terá regras e princípios em demasia? Sei lá...
Percebo também, que comecei no fim de um longo período de amadurecimento e que a arte em Portugal está em franca mudança! Que grande privilégio! Espero poder continuar a acompanhar esta evolução!
Para terminar, ficam algumas imagens do meu jardim. O espaço onde me encontro. Com as minhas alegrias e com as minhas desilusões. Uma sincera homenagem às pequenas árvores que me acompanham nesta aventura.
Finalmente, um forte abraço a todos os amigos que tiveram a paciência de me ensinar neste que espero que seja o primeiro de muitos anos de bonsai.
A todos, um grande bem haja!



Fotos: Agosto 2009